O fim do impresso?

Artigo de Karin Verzbikas para o Jornal Imagem da Ilha

O desaparecimento dos veículos impressos, dado por certo pelos profetas contemporâneos do Apocalipse midiático, ainda não aconteceu. Pelo menos não em larga escala, frente à fúria arrebatadora das mídias digitais. Aspectos políticos e culturais próprios do ser humano, como por exemplo considerar uma população economicamente ativa acima dos 50/60 anos e fiel ao café-jornal, não foram anteriormente levados em conta.  Assim como não contavam também com a astúcia e capacidade de antigos, conservadores e robustos jornais se reinventarem para criar ferramentas de interação com o leitor.

E nesse morre-não-morre, em meio a uma profusão de apostas nervosas e às vezes suicidas de jornalistas, anunciantes e donos de veículos, a vida tratou de nos mostrar que outros aspectos, alheios e arquitetados pelos grandes estrategistas de mídia, inibiram o avanço da anunciada doença terminal. Uma delas é a atual onda de notícias fake, invadindo efusiva e democraticamente a timeline de plebeus e autoridades máximas, que vem provocando uma espécie de revisitação aos princípios éticos jornalísticos. A verdade é que gente que nunca se preocupou em checar a origem de uma informação antes de compartilhar está sendo mais cuidadosa agora, depois que sofreu exposições virtuais, digamos, constrangedoras. Outros, que se contentavam em beber nas fontes de perfis do tipo “bonitinhos, mas ordinários”, voltam a entrar nos perfis de jornais conhecidos ou recorrem à versão impressa.

O fato é que a crise de credibilidade se mostrou maior que a enfadonha briga de digital versus impresso. O foco agora é o conteúdo e não a plataforma. Isso não quer dizer que a publicação impressa seja um atestado de veracidade e imparcialidade da notícia. Definitivamente não.  E quem acompanha a produção de notícias e a forma como o novo jornalismo vem sendo praticado sabe bem disso. Porém, há uma tendência, confirmada em pesquisas recentes, de que o leitor acredita muito mais no que lê num material impresso do que aquilo que recebe pelas redes sociais, ainda que o produtor da comunicação seja o mesmo nas duas mídias. E o placar é cruel: 52% contra 27%. Essa surra de credibilidade justifica em parte porque os recursos publicitários não estão 100% alocados no meio digital e conseqüentemente porque os tradicionais veículos impressos, mesmo com certa dificuldade, ainda resistem.

Um mergulho na cabeça do leitor e a credibilidade volta à pauta. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República ouviu 15 mil brasileiros e acaba de divulgar o resultado da Pesquisa Brasileira de Mídia, feita pelo Ibope. Mais uma vez, os jornais impressos estão na liderança de confiança dos brasileiros como meio de comunicação. O percentual de entrevistados que disseram que confiam sempre ou muitas vezes nas notícias publicadas em jornais é de 59%. Rádio e televisão têm 57% e 54%, respectivamente. Um volume bastante alto quando comparado com outras mídias, como por exemplo as digitais. Nada menos que 62% dos leitores de blogs e 63% dos usuários de redes sociais não acreditam naquilo que lêem.

E antes que você pense que isso tem a ver com a credibilidade do país, diante da Era Lava-Jato e o nosso consagrado “jeitinho”, saiba que essa crise de credibilidade não é “coisa de brasileiro”. Os americanos, que adoram aplicar métricas para tudo, fizeram uma pesquisa pelo Instituto Gallup e encomendada pela Fundação Knight. Os resultados mostram que a população dos Estados Unidos confia mais nos jornais locais (54%) e nos diários de circulação nacional (51%) do que nas redes sociais (38%).

Ou seja, se o impresso ainda não morreu não é porque as pessoas sejam resistentes para migrar integralmente para o ambiente digital. Mas é fundamentalmente porque políticos, empresas e governos sabem que a credibilidade do leitor ainda passa pelo papel. E consequentemente que a mídia publicitária, ainda que em menor volume do que em áureos tempos, vai continuar sendo ali aportada.

Enquanto isso, nós, os analógicos do café-jornal, vamos não só continuar prestigiando o modelo impresso, mas principalmente exigindo a prática do bom jornalismo, plural e democrático. De preferência, capitaneado por veículos que, de fato, invistam profissionais e recursos na qualidade da notícia produzida. Ou seja, como já falamos antes, o foco precisa estar no conteúdo e não necessariamente na plataforma.

Karin Verzbickas é jornalista e diretora executiva da Fábrica de Comunicação.

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