Corporativês pode soar artificial e cansativo. Foto Divulgação

Não abuse do corporativês!

Align meeting, deadline, devolutiva, budget, performar, sinergia, kickoff, approach, asap, randômico, FYI, empoderar, mandatory… Se você já se perdeu numa reunião de negócios em meio a tantas expressões corporativas, eu tenho uma boa notícia: você não é o único! Há mais de duas décadas, quando participei pela primeira vez de uma reunião da área de comunicação numa grande empresa internacional descobri que havia um dialeto próprio das corporações – e independente da sua nacionalidade de origem – que eu, absolutamente, não dominava. Era o tal “corporativês”. Pelo menos a metade dos termos utilizados no breve “meeting” eu não fazia a menor ideia do que significava.

De lá para cá a coisa só piorou. Empregado virou colaborador – ou talento –, e chefe virou palavrão, agora é líder. Jamais marque uma reunião de alinhamento, mas sim um align meeting. E, por favor, não cometa a insensatez de pedir uma atualização sobre determinado projeto, mas sim um update. Orçamento é budget, mesmo quando não há um real furado para ser investido. Quem dá retorno é iniciante, “empoderados” dão feedback. Nem pense em pedir explicação para aquele e-mail, meio mal-educado, que o seu cliente ou líder te mandou e que, ao final de tantos pedidos inalcançáveis, ele coloca um asap. Asap? Sim, é para você resolver o quanto antes (as soon as possible). Às vezes nem é preciso traduzir o corporativês para saber que você está ferrado.

Essas expressões surgiram da necessidade de algumas multinacionais, lá na década de 70/80, nomearem práticas comuns em todas as suas unidades. Claro, a origem de termos em inglês imperou. Mas há também aquele corporativês que criamos aqui mesmo em terras tupiniquins. Outro dia, de forma automática e pouco próxima, cometi um equívoco ao convidar um amigo para almoçar. Eu disse por WhatsApp que esperava dele uma “devolutiva”. ‘Oi? Devolutiva? Achas que está falando com o presidente de qual cliente seu?’, disse ele. Morri de vergonha.

A verdade é que esses termos viciam e são incorporados no dia a dia da gente à medida que ganham relevância e significado. Cuidado! Temos que nos policiar para não dizer para a diarista lá de casa que ela precisa “performar” mais. Ou, ainda, enviar bilhete para a escola do filho dizendo que vai “brifar” melhor a professora acerca dos problemas que estão ocorrendo. O mesmo vale para não usar expressões do corporativês já tidas como ultrapassadas ou politicamente incorretas nas empresas com conceitos mais avançados. Exemplo? Lembra do termo “reengenharia financeira”? O que na década de 90 era tido como um processo inteligente de se buscar soluções para problemas financeiros em uma empresa ou projeto, hoje se tornou sinônimo de “maracutaia financeira”. Pega mal. Dá a entender que você está propondo algo ilícito. Outro exemplo: “pensar fora da caixa”, o famoso “think outside the box”, virou termo de executivo velhaco, ultrapassado. Hoje o cult é falar em “design thinking”, que se refere a um tipo de pensamento mais estratégico adotado no mundo corporativo – e olha que esse termo já não é tão novo assim. O mesmo vale para “know-how” ou “savoir-faire”. Falou, faleceu! Ninguém perdoa mais.

Assim como na vida dizemos que você é o que você come, no mundo corporativo você é aquilo que você fala. Querer ostentar, debulhando quatro ou cinco expressões de corporativês na mesma frase pode soar artificial e teatralizado se você não atribuir uma exata relevância e significado para cada termo dito. Então, se o corporativês te assusta, minha dica é: anote discretamente na reunião tudo aquilo que você não entendeu e depois pesquise. Abuse desse google grátis e 24 horas disponível que a humanidade contemporânea conquistou! Vá se ambientando e incorporando no seu dia a dia aquilo que realmente faz sentido para você. Exemplo: nunca engoli aqueles “FYI” nos encaminhamentos de e-mail. A expressão quer dizer “for your information”, isto é, para sua informação. Eu uso – e quem trabalha comigo sabe que uso muito – o “psc”, que é o “para seu conhecimento”. Simplesmente porque falo português e essa é a língua original na minha empresa. Adotar estrangeirismos – seja de qual nacionalidade for – achando que isso dá status ou mostra conhecimento, é sim um grande erro.

Na área de comunicação, sofremos ainda mais. Imagino que no segmento de tecnologia mais ainda. E há termos já tão enraizados em nossa cultura que não há como mudar. Quando dizemos que gostamos do “design” de tal objeto, está certo. Não dá para substituir por desenho. O desenho em si não traduz a magnitude do termo “design”. Enquanto desenho para nós é o traço, design é bem mais que isso, é pensar a inteligência e a funcionalidade contida naquele desenho específico. Mas acredito que temos que nacionalizar aqueles termos que serão usados exclusivamente em grupos de pessoas essencialmente brasileiras. Por que dizer que precisamos fazer um “conference call” se a necessidade é só uma reunião por telefone? Não é melhor simplificar e universalizar a informação no âmbito das pessoas que estamos nos relacionando?

Para concluir, o que vale é bom senso. Sempre. Não abuse de estrangeirismos vazios. Use e abuse daqueles que você se apropriou e que tem realmente relevância e significado para o que você vai dizer. Falar complicado e bonito não significa que a sua mensagem vai ser clara e eficiente. Na maioria das vezes, é o contrário. Então, identifique primeiro com quem você está falando e qual a linguagem que você deve realmente usar. E não saia por aí como eu, num ato falho, pedindo “devolutiva” para um amigo íntimo. E, como se diz no fechamento de muitas reuniões corporativas: Let’s go forward together! (Vamos avançar juntos!).

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